segunda-feira, 6 de junho de 2011

CARTA A VAN GOGH

Vincent a bala que perfurou seu peito rasgando sua carne me fez chorar por sua dor, você permaneceu sangrando até a chegada desesperada de Theo, talvez ainda não compreenda os motivos, talvez percorra também os mesmos labirintos da alma que o impulsionaram, mas já posso afirmar que aceito sua decisão de dar um basta neste fazer sofrer, como você mesmo falou: a “miséria não acabará jamais”.
Só você é capaz de nos relatar esta monumental força que mora em seu peito, nos oferta a luz liberta o movimento e ao mesmo tempo o mergulha nas sombras obscuras de gênero humano, seria este o motivo do alvo?
Apoteótica é sua arte, mas de antemão sei que sua função é apenas distrair os dissabores permanentes, me faz lembrar a canção que dizia que viver é melhor que sonhar, eu sei que o amor é uma coisa boa, mas também sei que qualquer canto é menor do que a vida de qualquer pessoa, hoje vivemos dias de total indiferença de total alienação, o fenômeno transformador do fazer artístico ainda provoca reações, mas esta absorvido por um mercado ávido por inovações.Sabemos que os caminhos da arte para aqueles que lhe dedicam o melhor
de sua capacidade é tortuoso e íngreme, a redenção está no seu exercício, em permanecer o maior tempo possível na sua presença, mas existir no tempo e no espaço cobra suas viscosidades, por isso não te questiono, me preocupa o fato do imenso vazio que sua ausência nos causa.Amigo, você e tantos outros que contribuem para que a humanidade avance em busca de si mesma deveriam ficar mais tempo junto a nós, são seres imprescindíveis, pena mesmo que esta intangível força acabe por nos apartar, então, fica a obra vai o artista, fica a memória sucumbe o homem, mas para os que permanecem sua energia nos impulsiona mais e mais, me permito afirmar que mesmo na dor vale o sacrifício, o objetivo se cumpriu, a luz finalmente atingiu o olhar
dos que tocados por seu calor e sensibilidade aceitam de bom grado cumprir os ditames da arte, do humano, do sensível, do fundamental e inadiável efeito do espírito criador que nos move velozes, ansiosos por atingir o topo e vislumbrar o horizonte, obrigado Vincent por sua capacidade incontida, por seu exemplo, que esteja confortável em seu campo sideral, ainda caminharemos lado a lado, até...

Texto: André Soares
Imagem: V. Gogh

Nenhum comentário: